NOSSO ALVO EM COMUM - PARTE 2 - COMPLETAR A CARREIRA

Por: Rev. Paulo Sergio da Silva

3ª IPB de Barretos / SP 
10.01.10 – Culto Vespertino

TEXTO BÁSICO – 2 Timóteo 4:7
Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.

EXÓRDIO
Existem muitas pessoas que não terminam o que começam, iniciam algo e não completam. A questão da falta de determinação e perseverança é uma questão ligada ao caráter das pessoas. Infelizmente muitos há que iniciam algo e não completam, não terminam. Basta observarmos quantos casamentos acabam na lua de mel, ou nos primeiros meses ou anos de convivência. Ou quantos assumem um compromisso na área profissional e não o cumprem. Na Igreja as coisas muitas vezes tendem a piorar ainda mais. Quantos desistem da vida cristã assim que surgem os primeiros obstáculos ou provações? Quantas vezes prometemos algo para o Senhor e rapidamente nos esquecemos? Costumamos dizer que quem não termina o que começa é negligente ou irresponsável, age infantilmente. E também notamos que uma das faces da maturidade está em assumir e honrar seus compromissos.
Em se tratando da vida espiritual, A CARREIRA CRISTÃ, existem algumas semelhanças e peculiaridades, como veremos a seguir.
 

EXPLICAÇÃO
Paulo demonstra sua alegria em dizer que havia completado a sua carreira cristã. É de suma importância lembrarmos que quando escreveu essa carta, Paulo estava preso (1:8; 2:9), e a maioria dos amigos o havia deixado (4:10,11). Mas apesar disso tudo, e estando no final de sua vida, ele estava tranqüilo, e regozijando-se, certo de haver atingido o alvo, a meta proposta por Deus. 

Leia o sermão “A Carreira Cristã” do Rev. Hermisten Maia.

Mas afinal o que é a CARREIRA Cristã? Quando Paulo diz que havia completado a sua CARREIRA, a que ele se refere?

ARGUMENTAÇÃO
Entendemos que a carreira é a vida. Assim sendo, carreira cristã significa VIDA CRISTÃ, ou seja, a caminhada com Cristo aqui na face da Terra, mantendo-se fiel a Ele, cumprindo o ministério recebido do Senhor, durante o tempo e nas circunstâncias permitidas por Deus. Ao usar aqui o termo “ministério” não me refiro ao ministério pastoral ou apostólico, no contexto de Paulo e dos onze exclusivamente, mas ao ministério que cada crente recebe do Senhor Jesus para testemunhar o Evangelho da graça de Deus a toda criatura, conforme Marcos 16:15. Obviamente inclui-se aqui o ministério pessoal que cada crente tem, de acordo com seus talentos e dons.

De que necessitamos para a complementação de nossa CARREIRA diante de Deus?

1 – VOCAÇÃO
Ninguém veio a Cristo porque simplesmente quis, teve vontade ou, porque livremente escolheu este caminho. A vida cristã é resultado único da vocação divina; depende do chamado misericordioso e eficaz do Senhor nosso Deus.

Falando acerca da vocação cristã, Paulo escreveu aos filipenses usando a expressão:
“...prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”  Filipenses 3:14b.
A vida cristã tem início com o chamado irresistível de Deus. Deus nos escolheu na eternidade, e amorosamente nos predestinou para sermos dEle.
“...assim como nos escolheu, nEle, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele; e em amor nos predestinou para Ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade...”  Efésios 1:4,5.

Deus é eterno, mas também é o Senhor do tempo e interage no tempo. Ele não está alheio à nossa realidade de vida, e por isso nos chamou no tempo determinado por Ele, na hora certa, do jeito certo, com santa vocação, exclusivamente por sua graça.
"...que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos..."  2 Timóteo 1:9.

A vocação realizada por Deus no tempo, é a concretização de nossa predestinação eterna. Os propósitos de Deus são inabaláveis!
"Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou."  Romanos 8:29-30.

Paulo teve também a sua experiência com Deus, no caminho de Damasco, de um modo totalmente peculiar. Ele que era perseguidor da igreja, tornou-se perseguido por causa da fé revelada nele por Jesus Cristo.
"Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim..."  Gálatas 1:15,16b.

A vocação de Deus nos tornou povo de Deus, povo que alcançou e foi alcançado pela misericórdia eterna de Deus.
“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia.”  1 Pedro 2:9-10.

Notemos também, que a nossa vocação não tem nada em si mesma que possa motivar o nosso orgulho já que o próprio Senhor diz:
“Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores.”  Marcos 2.17b.

Somos chamados “na graça de Cristo” conforme Gálatas 1:6.

Quando aprouve a Deus, Ele nos atraiu para Si.
“....nos chamou para a sua própria glória e virtude”  2 Pedro 1:3b.

Deus vocaciona a quem Lhe aprouver. Ele nos chamou para a comunhão de Seu Filho e à “koinonia” (comunhão) da Igreja, de um modo totalmente soberano.

“Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.”  1 Coríntios 1:9.

“Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.”  1 Coríntios 1:26-28.

Cabe a nós, povo eleito de Deus, vivermos de um modo coerente com a nossa vocação.
“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados.”  Efésios 4:1.

“Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.”  2 Pedro 1:10,11.

Na vocação de Deus, vemos a concretização do Seu propósito sábio, amoroso e eterno: “...nEle, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”  Efésios 1:11.

2 – SANTIFICAÇÃO
“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”  Hebreus 12:14.

A doutrina da santificação pode ser definida como o ato sobrenatural que se inicia com a regeneração, consistindo no progressivo abandono do pecado em direção a Deus. (Hermisten M.P. Costa, O Pai Nosso: A Oração do Senhor, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2001).

A santificação começa com o nosso novo nascimento; todavia, ela jamais terá fim nesta vida. Nós não somos perfeitos, nem o seremos, enquanto estivermos neste modo de vida terreno; mas, buscamos a perfeição; caminhamos em sua direção. Paulo declara:
“Não que eu o tenha já recebido, ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma cousa faço: esquecendo-me das cousas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”  Filipenses 3:12-14.

O pecado continuará em toda a nossa peregrinação terrena a exercer influência sobre nós; por isso, qualquer conceito de perfeccionismo espiritual que declare que o crente não mais peca, é antibíblico. A Palavra de Deus ensina enfaticamente que nós pecamos, mesmo após o nosso novo nascimento.
“Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós. Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.”  1 João 1:8-2:2.

Mas existe uma diferença crucial entre aquele que teme a Deus e necessita de sua graça para manter-se limpo, e aquele que vive na prática do pecado. Esse jamais conheceu a Deus.
“Todo aquele que permanece nEle não vive pecando; todo aquele que vive pecando não O viu, nem O conheceu.Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus.”  1 João 3:6,9.

O crente verdadeiro vive de modo diferente. O nosso maior testemunho é a nossa vida. Alguém disse que enquanto as nossas palavras falam, nossos atos gritam.
“Ora, sabemos que O temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu O conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade. Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nEle: aquele que diz que permanece nEle, esse deve também andar assim como Ele andou.”  1 João 2:3-6.

O que nos distingue da nossa antiga condição é que não mais temos prazer no pecado; podemos até dizer que o pecado é um acidente de percurso na vida dos regenerados, que lhe causa tristeza de alma e de coração. Quando confessou a Deus o seu pecado, Davir suplicou com tristeza:
“Restitui-me a alegria da tua salvação...”  Salmos 51:12a.

Antes o pecado comandava o nosso pensar e agir, agora ele ainda pode nos influenciar, é verdade, todavia não reina em nossas vidas.
"O pecado deixa apenas de reinar, não, contudo de neles habitar.”  João Calvino, As Institutas, III.3.11.

“Ainda que o pecado não reine, ele continua a habitar em nós e a morte é ainda poderosa.”  João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, p. 44.

John Murray (1898-1974) ilustra bem este ponto:
“Há uma total diferença entre o pecado sobrevivente e o pecado reinante, o regenerado em conflito com o pecado e o não-regenerado tolerante para com o pecado. Uma coisa é o pecado viver em nós; outra bem diferente é vivermos em pecado. Uma coisa é o inimigo ocupar a capital; outra bem diferente é suas milícias derrotadas molestarem os soldados do reino.”  John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 1993, p. 162.

Isto indica a necessidade do convertido adquirir novos hábitos pela prática da verdade em amor.
“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”  Efésios 4:15.

A graça de Deus é educadora, ensinadora; a CARREIRA CRISTÃ é um aprendizado.
“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras. Dize estas coisas; exorta e repreende também com toda a autoridade. Ninguém te despreze.”  Tito 2:11-15.

Deus age através das Escrituras, corrigindo-nos e educando-nos na justiça para o nosso aperfeiçoamento.
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.”  2 Timóteo 3:16,17.

Ao povo da Aliança que se desviara do caminho do Senhor, Este lhe diz: “Aprendei a fazer o bem” (Is 1.17). A santificação é justamente isto; um santo aprendizado guiado pelo Espírito, tendo como constituição normativa e legislativa do nosso pensar, agir e sentir, a Palavra de Deus. Portanto, a santificação envolve uma nova “alfabetização” espiritual guiada pela Palavra de Deus.

"A santificação é um processo contínuo pelo qual Deus, por sua misericórdia, muda os hábitos e o comportamento do crente, levando-o a praticar obras piedosas" A. Booth, Somente pela Graça, São Paulo, PES, 1986, p. 44-45.

Todavia, continuaremos sendo pecadores até o fim desta existência terrena, até o dia em que entraremos na glória celestial e seremos revestidos da glória de Deus. Lá viveremos eternamente sem o problema do pecado. Mas para lá entrarmos precisamos completar a CARREIRA CRISTÃ que nos está proposta.

CONCLUSÃO
O que poderia nos desviar da CARREIRA CRISTÃ? O que poderia neste mundo nos impedir de completar a carreira? Uma vez vocacionados por Deus; e vivendo em santificação, como um sinal claro e visível dessa vocação, podemos dizer que nada poderá nos separar do amor de Cristo.

“Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”  Romanos 8:38,39.

Deus fez a sua parte, agora cabe a nós cumprir fielmente aquilo que Ele requer de nós, nossa fidelidade e obediência é a confirmação de que Ele habita em nós, pelo seu Espírito, e que nos capacita, por sua graça, a viver de conformidade com sua vontade.

“Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.”  Apocalipse 2:10b.

Essas palavras de Cristo, ditas a João na Ilha de Patmos, foram dirigidas inicialmente à Igreja de Esmirna, mas retratam as provações e sofrimentos que a Igreja Primitiva e Medieval sofreu, e as atrocidades que passaram por sua fé em Cristo. O que nós sofremos hoje, aqui no ocidente, é NADA se comparado com o que aqueles servos de Deus passaram.

  • Cena do filme Quo Vadis


Deus nos ajude a sermos fiéis até a morte, completando fielmente a nossa carreira em Cristo Jesus.

Amém.

S.D.G.

Algumas citações foram extraídas do sermão do Rev. Hermisten Maia - A Carreira Cristã.

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